Fernando Brandão • 20 de abril de 2019

O ombro é uma articulação especialmente vulnerável na natação. Diferentemente de esportes como vôlei e tênis, que intercalam movimentos de explosão e repouso, a natação exige contração muscular constante, durante centenas ou milhares de repetições. Esse tipo de solicitação, caracterizada como resistência ou endurance, está relacionada a lesões por microtraumatismos de repetição.

A dor no ombro é um sintoma comum nos nadadores. Até 70% dos atletas, amadores ou profissionais, apresentam algum tipo de dor durante sua vida esportiva. A intensificação dos treinos e a participação em competições aumentam o risco de lesões.

Como em outros esportes, a primeira medida a se tomar é a caracterização da dor. Quanto mais cedo é o relato da dor, mais específico é o diagnóstico. Frequentemente, nadadores apresentam dor em uma região específica do ombro, mas não diminuem a intensidade do treino, levando a uma dor mais difusa, de mais difícil diagnóstico.

A diferenciação entre mialgia e dor articular é importante. A mialgia acomete principalmente a região posterior e lateral do ombro, relacionadas aos músculos trapézio e deltóide. É causada por contração muscular prolongada e tem duração limitada, geralmente de 24 a 72 horas. A dor articular, por outro lado, é causada por sobrecarga de uma estrutura articular, geralmente um tendão, podendo evoluir para lesão estrutural anatômica. Ela acomete principalmente a região anterior e superior do ombro. Um erro comum do nadador é confundir uma dor articular com mialgia e esperar que melhore espontaneamente, mantendo o mesmo padrão de treinamento.

O mecanismo de lesão no ombro do nadador inicia-se, geralmente, com fadiga do músculo serrátil anterior, que estabiliza a escápula ao tórax. O mau posicionamento escapular leva a sobrecarga dos tendões do manguito rotador. Na tentativa de evitar a dor, o nadador faz adaptações involuntárias na braçada, com uma saída mais precoce da mão, cotovelo caído na fase de recuperação e entrada mais aberta da mão na água. Além de levarem a menor eficiência, essas mudanças sobrecarregam ainda mais as estruturas articulares.

O treinador tem papel essencial em identificar o início de um quadro doloroso no ombro do nadador. A maioria dos casos apresenta melhora com adaptações e diminuição provisória da intensidade do treino. Na fase aguda, ou inflamatória, recomenda-se o uso de anti-inflamatórios por período limitado, a interrupção do uso de palmares e o treinamento cardiovascular em atividades que não sobrecarreguem o ombro. No caso de manutenção do quadro, é importante a avaliação médica.

É importante lembrar que a correção funcional do gesto esportivo e o planejamento adequado do treinamento são essenciais para a prevenção dessas lesões.

Conheça o Profissional

Dr. Fernando Brandão de Andrade e Silva

CRM-SP: 112045

  • Graduação em medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).
  • Especialista em cirurgia do ombro e cotovelo pelo Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da FMUSP (IOT-HCFMUSP).
  • Doutorado em Ortopedia pelo Departamento de Ortopedia e Traumatologia da FMUSP (DOT-FMUSP).
  • ​Título de especialista pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT).
  • ​Título de especialista em cirurgia do ombro e cotovelo pela Sociedade Brasileira de Cirurgia do Ombro e Cotovelo (SBCOC).
  • ​Médico do Grupo de Ombro e Cotovelo do Hospital da Clínicas da USP. Atuação na área de ensino e pesquisa.
  • ​Dr Fernando atua no tratamento das lesões do ombro e cotovelo, há mais de 15 anos, e desenvolve pesquisas na área, no Departamento de Ortopedia da USP.
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